Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII.

POESIAS
EROTICAS, BURLESCAS, E SATYRICAS
DE
M.M. DE BARBOSA DU BOCAGE.
Não comprehendidas na edição
QUE DAS OBRAS D'ESTE POETA SE PUBLICOU EM LISBOA,
NO ANNO DE MDCCCLIII.

Elemento decorativo
BRUXELLAS

MDCCCLX.

Nota do Transcritor:

Erros tipográficos de ortografia, pontuação e indentação óbvios foram corrigidos; quaisquer outros erros ou inconsistências foram mantidos como no original.

O Índice foi movido do final para o início do livro de forma a facilitar a sua utilização.

Foi apenso ao final do livro um Índice Exaustivo dos Poemas Contidos Neste Volume. Poemas para os quais o editor não providenciou um título são identificados pelo seu primeiro verso em itálico. Poemas de outro autor que não Bocage têm o nome do seu autor indicado entre parênteses após o título do poema.


INDICE DAS POESIAS QUE SE CONTÉM N'ESTE VOLUME.

Pag.
Ribeirada, poema5
A Manteigui, poema19
A Empreza Nocturna29
Epistola a Marilia (Pavorosa illusão etc. )35
Fragmento de Alceu43
Arte de Amar47
Cartas de Olinda e Alzira (VII)61
Sonetos (LII)109
Miscellanea163
Elegia á morte de uma Alcoviteira172
Notas177
«Refutações á Pavorosa180
«Sonetos etc. contra Bocage199
«Sonetos contra frades205
«Sonetos á beata d'Evora213
«Soneto de P.J. Constancio216


ADVERTENCIA PRELIMINAR.

Constou que muitas pessoas, que subscreveram para a recentissima edição das Poesias de Bocage, publicada em Lisboa, e concluida já no anno corrente, desejosas de possuir tudo o que saiu da penna de tão peregrino engenho, como que se lastimavam de não poderem juntar áquella collecção para a tornar completa, as obras do mesmo autor, que por tratarem de assumptos anti-religiosos, ou pouco conformes á decencia e moralidade dos publicos costumes, foram (ao que parece) com acertado fundamento omittidas na referida edição.

Entretanto é facto incontestavel que parte d'essas obras teem já sido impressas em diversos tempos, e que outras correm desde muitos annos pelas mãos dos curiosos em copias mais ou menos viciadas e incorrectas, como é de uso em papeis conservados manuscriptos, mórmente nos de tal natureza. A esta consideração veiu naturalmente prender-se outra, de certo bem attendivel no juizo do julgador imparcial: e é que do principio ao meado do seculo XIX medea longa distancia no perigo de similhantes publicações.

Nesta conjunctura alguem se persuadiu de que prestaria mui agradavel serviço aos que ambicionam inteirar suas collecções offerecendo-lhes estampadas em egual formato, e com a mesma disposição typographica essas composições, de cuja falta tanto lhes pezava; as quaes são, pelo assim dizer, outros tantos documentos indispensaveis para se avaliar cabalmente o merito do poeta; — conhecer até que ponto chegaram suas aberrações; — e para completar o desenho das diversas feições moraes do seu retrato; attendendo principalmente a que, conforme a reflexão já feita por um juiz competente, se as poesias licenciosas de Horacio são os seus unicos versos sem espirito, pelo contrario as de Bocage bastariam de per si a dar-lhe nome, e credito, se estes podessem provir de tal genero, ou se a sua gloria não estivera cimentada em mais firmes e seguros alicerces.

Eis ahi pois os motivos da publicação do presente volume.

Sirvam estas razões de salvo-conducto com que grangeêmos obter venia perante os animos sensatos e despreoccupados: quanto áquelles para quem (na phrase de um nosso amabilissimo contemporaneo) é mais alto escandalo escrever um beijo do que tomar cento, — esses teem em si mesmos contra o veneno do livro um preservativo tão facil quanto infallivel: — Não o comprem, nem o lêam, e ficaremos em boa paz.


RIBEIRADA:
POEMA EM UM SÓ CANTO


ARGUMENTO.

Quando o preto Ribeiro entregue ao somno
Jazia, lhe apparece o deus Priapo;
E com uma das mãos, por ser fanchono,
Lhe agarra na cabeça do marsapo:
Offerece-lhe depois um bello cono,
Cono sem cavallete, gordo, e guapo:
Casa o preto, e a mulher, por fim de contas,
Lhe põe na testa retorcidas pontas.

CANTO UNICO.

I

Acções famosas do fodaz Ribeiro,
Preto na cara, enorme no mangalho,
Eu pretendo cantar em tom grosseiro,
Se a Musa me ajudar neste trabalho:
Pasme absorto escutando o mundo inteiro
A porca descripção do horrendo malho,
Que entre as pernas alverga o negro bruto
No lascivo appetite dissoluto.

II

Oh Musa gallicada, e fedorenta!
Tu, que ás fodas d'Apollo estás sujeita,
Anima a minha voz, pois hoje intenta
Cantar esse mangaz, que a tudo arreita:
D'esse vaso carnal, que o membro aquenta,
Onde tanta langonha se aproveita,
Um chorrilho me dá, oh Musa obscena,
Que eu com rijo tezão pégo na pena.

III

Em Troia, de Setubal bairro inculto,
Mora o preto castiço, de quem falo;
Cujo nervo é de sorte, e tem tal vulto,
Que excede o longo espeto de um cavallo:
Sem querer nos calções estar occulto,
Quando se enteza o tumido badalo,
Ora arranca os botões com furia rija,
Ora arromba as paredes, quando mija.

IV

Adorna hirsuto rispido pentelho
Os ardentes colhões do bom Ribeiro,
Que são duas maçãs de escaravelho,
Não digo na grandeza, mas no cheiro:
Ali piolhos ladros tão vermelho
Fazem com dente agudo o pau leiteiro,
Que o cata muita vez; mas ao tocar-lhe
Logo o membro nas mãos entra a pular-lhe.

V

Os maiores marsapos do universo
Á vista d'este para traz ficaram;
E do novo Martinho em prosa, e verso
Mil poetas a porra decantaram:
Quando ainda o cachorro era de berço
Umas moças por graça lhe pegaram
Na pica já taluda, e de repente
Pelas mãos lhes correu a grossa enchente.

VI

De Polyphemo o nervo dilatado,
Que intentou escaxar a Galathéa,
Pelo mundo não deu tão grande brado
Como a porra do preto negra, e fêa:
Da Cotovia o bando gallicado
Com respeito mil vezes o nomêa,
E ao suberbo estardalho do selvagem
As putas todas rendem vassallagem.

VII

O longo, e denso veo da noute escura
Das estrellas bordado já se via;
E em rota cama a horrenda creatura
Os tenebrosos membros estendia:
Do caralho a grandissima estatura
C'os lençóes encobrir-se não podia,
E a cabeça fodaz de fora pondo
Fazia sobre o chão medonho estrondo.

VIII

Os ladros, que fieis o acompanhavam,
A triste colhoada a cada instante
Com agudos ferrões lhe traspassavam,
Atormentando a besta fornicante:
Na durissima pelle se entranhavam,
Supposto que com garra penetrante
O negro dos colhões a muitos saca,
E o castigo lhes dá na fera unhaca.

IX

Tendo o cono patente no sentido
Na barriga o tezão lhe dava murros;
E de activa luxuria enfurecido
Espalhava o caxorro afflictos urros:
Co'a lembrança do vaso appetecido
O nariz encrespava, como os burros;
Até que, em vão berrando pelo cono,
De todo se entregou nas mãos do somno.

X

Já, roncando, os visinhos acordava
O lascivo animal, que representa
C'o motim pavoroso, que formava,
Trovão fero no ar, no mar tormenta:
Com alternados couces espancava
Da pobre cama a roupa fedorenta,
Que pulgas esfaimadas habitavam,
E de mil cagadelas matizavam.

XI

Eis de improviso em sonhos lhe apparece
Terrifica visão, que um braço estende,
E pela grossa carne, que lhes cresce
Debaixo da barriga ao negro prende:
Acorda, põe-lhe os olhos, e estremece
Com quem ao terror se acurva, e rende:
Com o medo, que tinha, a porra ingente
Se metteu nas encolhas de repente.

XII

Do tremendo phantasma a testa dura
Dous retorcidos cornos enfeitavam;
E, debaixo da pansa, a matta escura
Tres disformes caralhos occupavam:
O sujo aspecto, a fêa catadura
Os rasgados olhões illuminavam;
E na terrivel dextra o torpe espectro
Empunhava uma porra em vez de sceptro.

XIII

Ergue a voz, que as paredes abalava,
E co'a força do alento sibilante
Mata a pallida luz, que a um canto estava,
Em plumbeo castiçal agonisante:
«Oh tu, rei dos caralhos (exclamava)
Perde o medo, que mostras no semblante:
Que quem hoje te agarra no marsapo
É de Venus o filho, o deus Priapo.

XIV

«Vendo a fome cruel do parrameiro,
Que essas negras entranhas te devora,
De putas um covil deixei ligeiro,
Por fartar-te de fodas sem demora:
Consolarás o rigido madeiro
N'uma femea gentil, que perto mora;
Mas não lh'o mettas todo, pois receio
Que a possas escaxar de meio a meio.»

XV

Disse; e o negro da cama velozmente
Para beijar-lhe os pés se levantava;
Mas tropeça n'um banco, e de repente
No fetido bispote as ventas crava:
Não ficando da queda mui contente
Co'uma gota de mijo á pressa as lava;
E, acabada a limpeza, a voz grosseira
Ao numen dirigiu d'esta maneira:

XVI

«Soccorro de famintos fodedores,
Propicia divindade, que me escutas!
Tu consolas, tu enches de favores
O mestre da fodenga, o pae das putas:
Viste que, do tezão curtindo as dôres,
Travava c'o lençol immensas luctas;
E baixaste ligeiro, como Noto,
A dar piedoso amparo ao teu devoto.

XVII

«Em quanto houver tezões, e em quanto o cono
Fôr de arreitadas picas lenitivo,
Sempre heide recordar-me, alto patrono,
De que és de meus gostos o motivo:
Pois me dás gloria no elevado throno,
E já, como o veado fugitivo
Que o caçador persegue, eu corro, eu corro
A procurar as bordas, por quem morro.»

XVIII

Deteve aqui a voz o rijo accento,
Que dos trovões o estrepito parece,
E logo d'ante os olhos n'um momento
A nocturna visão desapparece:
Deixa Ribeiro o sordido aposento,
Que de antigos escarros se guarnece;
E nas tripas berrando-lhe o demonio
Corre logo a tratar do matrimonio.

XIX

O brando coração da femea alcança
Com finezas, caricias, e desvelos;
A qual sobre a vil cara emprega, e lança
(Tentação do demonio!) os olhos bellos:
O fodedor maldito não descança
Sem ver chegar o dia, em que os marmellos
Que tem juntos do cú, dêem cabeçadas
Entre as candidas verilhas delicadas.

XX

Chega o dia infeliz (triste badejo!
Miseria crica! desditoso rabo!)
E ornado o rosto de um purpureo pejo
Une-se a mão de um anjo á do diabo:
Ardendo o bruto em férvido desejo
Unta de louro azeite o longo nabo,
Para que possa entrar com mais brandura
A vermelha cerviz faminta, e dura.

XXI

Principia o banquete, que constava
De dois gatos, achados n'um monturo.
E de raspas de corno, de que usava
Em logar de pimenta o preto impuro:
Em sujo frasco ali se divisava
Turva agua-pé; fatias de pão duro
Pela mesa decrepita espalhadas
A fraca vida perdem ás dentadas.

XXII

Depois de ter o esposo o bucho farto,
Abrasado de amor na ardente chamma,
Foge com leves passos para o quarto,
Ao collo conduzindo a bella dama:
Pelas ceroulas o voraz lagarto
A genital enxundia já derrama;
Só por ver da consorte o gesto lindo
Inda antes de foder já se está vindo!

XXIII

Jazia o velho thalamo n'um canto
Onde de pulgas esquadrão persiste,
Para theatro ser do afflicto pranto
Que havia derramar a esposa triste:
Oh noute de terror, noute de espanto,
Que das fodas crueis o estrago viste,
Permitte que com metrica harmonia
Patente ponha tudo á luz do dia.

XXIV

Ergue-lhe a saia o renegado amante,
Estira-se a consorte agil, e prompta;
E elle a setta carnal no mesmo instante
Ao parrameiro misero lhe aponta:
Co'um só beijo do membro palpitante
Ficou subitamente a moça tonta,
E julgou (tanto em fogo ardia o nabo!)
Que encerrava entre as pernas o diabo.

XXV

Prosegue o desalmado; mas a esposa
Que não pode aturar-lhe a dura estaca,
Dando voltas ao cú muito chorosa
Com geito o membralhão das bordas sacca:
Elle irado lhe diz, com voz queixosa:
«Não és uma mulher como uma vacca?
Porque fazes traições, quando te empurro
O mastro? quando vês que gemo, e zurro?»

XXVI

Então, cheio de raiva, aperta o dente,
E na gostosa, feminil masmorra,
Alargando-lhe as pernas novamente,
Com estrondosos ais encaixa a porra:
Ella, que já no corpo o fogo sente
Do marsapo, lhe diz: «Queres que eu morra?
Tu não vês que me engasgo, e que estou rouca,
Porque o cruel tezão me chega á bocca?

XXVII

«Ah! deixa-me tomar um breve alento,
Primeiro que rendida e morta caia…»
Mas elle, que na foda é um jumento,
Não tem dó da mulher, que já desmaia:
Sentindo ser chegado o fim do intento,
Do ranhoso licor lhe innunda a saia;
Porque dentro do vaso não cabia
A torrente, que rapida corria.

XXVIII

De gosto o vil caxorro então se baba,
E vendo que a mulher calada fica,
«Consola-te (exclamou) que já se acaba
Esta fome voraz da minha pica.»
E com muita risada então se gaba
De lhe ter esfollado a roxa crica;
Mas ella grita, ardendo-lhe o sabugo:
«Ora que casasse eu com um verdugo!

XXIX

«Fóra, fóra caxorro, não te aturo
Que me feres as bordas do coninho!»
E com desembaraço um tezo, e duro
Bofetão lhe arrumou pelo focinho:
Tomou em tom de graça o monstro escuro
A affrontosa pancada, e com carinho
Disse para a mulher: «Brincas comigo?
Pois torno-te a foder, por teu castigo.»

XXX

Estas vozes ouvindo a desgraçada
De repente no chão cahir se deixa;
E, temendo a mortifera estocada,
Ora abre os tristes olhos, ora os fecha:
Com suspiros depois desatinada
Da contraria fortuna ali se queixa;
Até que elle lhe diz, com meigo modo:
«Levanta-te do chão, que não te fodo.»

XXXI

Alma nova cobrou, qual lebre afflicta,
Que das unhas dos cães se vê liberta;
E apalpando a conaça (oh que desdita!)
Mais que bôca de barra a encontra aberta;
Mas consola-se um pouco, e já medita
Em fugir da ruina, que é tão certa;
E em vingar-se do horrivel Brutamonte,
Ornando-lhe de cornos toda a fronte.

XXXII

Tem conseguido a barbara vingança
A traidora mulher, como queria;
E o negro com paciencia branda, e mansa,
Soffrendo os cornos vai de dia em dia:
Bem mostra no que faz não ser creança,
Que de nada o rigor lhe serviria;
Porque se uma mulher quizer perder-se,
Até feita em picado ha de foder-se.

XXXIII

Agora vós, fodões encarniçados,
Que julgais agradar ás moças bellas
Por terdes uns marsapos, que estirados
Vão pregar c'os focinhos nas canellas:
Conhecereis aqui desenganados
Que não são taes porrões do gosto d'ellas:
Que lhes não pode, em fim, causar recreio
Aquelle, que passar de palmo e meio.

A MANTEIGUI:
POEMA EM UM SÓ CANTO.


ARGUMENTO.

Da grande Manteigui, puta rafada,
Se descreve a brutal incontinencia;
Do cafre infame a porra desmarcada,
Do cornigero esposo a paciencia:
Como á força de tanta caralhada
Perdendo o negro a rigida potencia,
Foge da puta, que sem alma fica,
Dando mil berros por amor da pica.

CANTO UNICO.

I

Canto a belleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil, como profano;
Corpo, que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martellos de Vulcano:
Corpo vil, que trabalha mais n'um dia
Do que Martinho trabalhou n'um anno;
E que atura as chumbadas, e pelouros
De cafres, brancos, maratás, e mouros.

II

Venus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva tambem que todas ellas;
Tu, que vinhas de Troya ás soledades
Dar a Anchises as mammas, e as canellas:
Que grammaste do pae das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez da crica a sêde,
Foste pilhada na vulcanea rêde:

III

Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jacques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lyra,
Para livrar-me do mortal quebranto:
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa
Sobre qual é mais bella, ou qual mais puta.

IV

No Cambayco Damão, que escangalhado
Lamenta a decadencia portugueza,
Este novo Ganós foi procreado,
Peste d'Asia em luxuria, e gentileza:
Que ermitão de cilicios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra teza?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?

V

Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tezões accendem;
As mammas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véos os véos offendem;
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ella ardendo,
Ás pissas pelas mãos lhe vão mettendo.

VI

Seus cristalinos, deleitosos braços,
Sempre abertos estão, não para amantes,
Mas para aquelles só, que, nada escassos,
Cofres lhe atulham de metaes brilhantes;
As niveas plantas, quando move os passos,
Vão pizando os tezões dos circumstantes;
E quando em ledo som de amores canta,
Faz-lhe a porra o compasso co'a garganta.

VII

Mas para castigar-lhe a vil cubiça
O vingativo Amor, como aggravado,
Fogo infernal no coração lhe atiça
Por um sordido cafre asselvajado;
Tendo-lhe visto a torrida linguiça
Mais extensa que os canos d'um telhado,
Louca de comichões a indigna dama
Salta n'elle, convida-o para a cama.

VIII

Eis o bruto se cossa de contente;
Vermelha febre sobe-lhe ao miolo;
Agarra na senhora, impaciente
D'erguer-lhe as fraldas, de provar-lhe o bolo:
Estira-a sobre o leito, e de repente
Quer do panno sacar o atroz mampolo:
Porém não necessita arrear cabos;
Lá vai o langotim com mil diabos.

IX

Levanta a tromba o rispido elephante,
A tromba, costumada a taes batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual ariete nas muralhas:
Ella enganchando as pernas delirante,
«Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não ha porra melhor em todo o mundo!
Mette mais, mette mais que não tem fundo.

X

«Ah! se eu soubera (continúa o couro
Em torrentes de semen já nadando)
Se eu soubera que havia este thesouro
Ha que tempos me estava regalando!
Nem fidalguia, nem poder, nem ouro
Meu duro coração faria brando;
Lavára o cú, lavára o passarinho,
Mas só para foder c'o meu negrinho.

XI

«Mette mais, mette mais… Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não vivêras em um perpetuo engano,
Pois vir-me-hia tambem quando te vinhas:
Mette mais, meu negrinho, anda, magano;
Chupa-me a lingua, meche nas mamminhas…
Morro de amor, desfaço-me em langonha…
Anda, não tenhas susto, nem vergonha.

XII

«Ha quem fuja de carne, ha quem não morra
Por tão bello, e dulcissimo trabalho?
Ha quem tenha outra idéa, ha quem discorra
Em cousa, que não seja de mangalho?
Tudo entre as mãos se me converte em porra,
Quanto vejo transforme-se em caralho:
Porra, e mais porra no verão, e no hynverno,
Porra até nas profundas do inferno!…

XIII

«Mette mais, mette mais (ia dizendo
A marafona, ao bruto, que suava,
E convulso fazia estrondo horrendo
Pelo rustico som com que fungava:)
Mette mais, mette mais que estou morrendo!…»
«Mim não tem mais!» O negro lhe tornava;
E triste exclama a bebada fodida:
«Não ha gosto perfeito n'esta vida!»

XIV

N'este comenos o cornaz marido,
O bode racional, veado humano,
Entrava pela camara atrevido
Como se entrasse n'um logar profano:
Mas vendo o preto em jogos de Cupido,
Eis sae logo, dizendo: «Arre magano!
Na minha cama! Estou como uma braza!
Mas, bagatella, tudo fica em casa.»

XV

A foda começada ao meio dia
Teve limite pelas seis da tarde:
Veiu saltando a nympha de alegria,
E da sordida acção fazendo alarde:
O bom consorte, que risonha a via,
Lhe diz: «Estás coráda! O ceo te guarde;
Bem boa alpistre ao passaro te coube!
Ora dize, menina, a que te soube?»

XVI

«Cale-se, tolo» (a puta descarada
Grita n'um tom raivoso, e lhe rezinga)
O rei dos cornos a cerviz pesada
Entre os hombros encolhe, e não respinga:
E o courão, da pergunta confiada,
Outra vez com o cafre, e mil se vinga,
Até que elle, faltando-lhe a semente,
Tira-lhe a mama, e foge de repente.

XVII