A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento

Eliphaz accusa Job de impiedade.

15 Então respondeu Eliphaz o themanita, e disse:

2 Porventura dará o sabio por resposta sciencia de vento? e encherá o seu ventre de vento oriental?

3 Arguindo com palavras que de nada servem e com razões, com que nada aproveita?

4 E tu tens feito vão o temor, e diminues os rogos diante de Deus.

5 Porque a tua bocca declara a tua iniquidade; e tu escolheste a lingua dos astutos.

6 A tua bocca [1] te condemna, e não eu, e os teus labios testificam contra ti.

7 És tu porventura o primeiro homem que foi nascido? [2] ou foste gerado antes dos outeiros?

8 Ou ouviste [3] o secreto conselho de Deus? e a ti limitaste a sabedoria?

9 Que sabes [4] tu, que nós não sabemos? e que entendes, que não haja em nós?

10 Tambem [5] ha entre nós encanecidos e edosos, muito mais edosos do que teu pae.

11 Porventura as consolações de Deus te são pequenas? ou alguma coisa se occulta em ti?

12 Porque te arrebata o teu coração? e porque acenam os teus olhos?

13 Para virares contra Deus o teu espirito, e deixares sair taes palavras da tua bocca?

14 Que [6] é o homem, para que seja puro? e o que nasce da mulher, para que fique justo?

15 Eis que nos [7] seus sanctos não confiaria, e nem os céus são puros aos seus olhos.

16 Quanto mais [8] abominavel e fedorento é o homem que bebe a [9] iniquidade como a agua?

Eliphaz mostra que o impio é atormentado n’esta vida.

17 Escuta-me, mostrar-t’o-hei: e o que vi te contarei

18 (O que os sabios annunciaram, ouvindo-o de seus paes, e o não [10] occultaram.

19 Aos quaes sómente se déra a terra, e nenhum estranho passou [11] por meis d’elles):

20 Todos os dias o impio se dá pena a si mesmo, e se reservam para o tyranno um certo numero d’annos.

21 O sonido dos horrores está nos seus [12] ouvidos: até na paz lhe sobrevem o assolador.

22 Não crê que tornará das trevas, e que está esperado da espada.

23 Anda vagueando por pão, dizendo: Onde está? Bem sabe que o dia [13] das trevas lhe está preparado á mão.

24 Assombram-n’o a angustia e a tribulação; prevalecem contra elle, como o rei preparado para a peleja.

25 Porque estende a sua mão contra Deus, e contra o Todo-poderoso se embravece.

26 Arremette contra elle com a dura cerviz, e contra os pontos grossos dos seus escudos.

27 Porquanto cobriu o seu rosto com a sua gordura, e criou enxundia nas ilhargas.

28 E habitou em cidades assoladas, em casas em que ninguem morava, que estavam a ponto de fazer-se montões de ruinas.

29 Não se enriquecerá, nem subsistirá a sua fazenda, nem se estenderão pela terra as suas possessões.

30 Não escapará das trevas; a chamma do fogo seccará os seus renovos, e ao assopro da sua bocca [14] desapparecerá.

31 Não confie pois na [15] vaidade enganando-se a si mesmo, porque a vaidade será a sua recompensa.

32 Antes [16] do seu dia ella se lhe cumprirá; e o seu ramo não reverdecerá.

33 Sacudirá as suas uvas verdes, como as da vide, e deixará cair a sua flor como a da oliveira.

34 Porque o ajuntamento dos hypocritas se fará esteril, e o fogo consumirá as tendas do soborno.

35 Concebem [17] o trabalho, e parem a iniquidade, e o seu ventre prepara enganos.

[1] Luc. 19.22.

[2] Pro. 8.25.

[3] Rom. 11.25, 34. I Cor. 2.11.

[4] cap. 13.2.

[5] cap. 32.6, 7.

[6] I Sam. 8.46. II Chr. 6.36. cap. 14.4. Pro. 20.9. Ecc. 7.20. I João 18.10.

[7] cap. 4.18 e 25.5.

[8] cap. 4.19.

[9] cap. 34.7. Pro. 19.28.

[10] cap. 8.8.

[11] Joel 3.17.

[12] I The. 5.3.

[13] cap. 18.12.

[14] cap. 4.9.

[15] Isa. 59.4.

[16] cap. 22.16.

[17] Isa. 59.4. Ose. 10.13.