Job confessa a justiça de Deus e pede allivio á sua miseria.
9 Então Job respondeu, e disse:
2 Na verdade sei que assim é; porque como se justificaria o [1] homem para com Deus?
3 Se quizer contender com elle, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder.
4 Elle é sábio [2] de coração, e forte de forças: quem se endureceu contra elle, e teve paz?
5 Elle é o que transporta as montanhas, sem que o sintam, e o que as transtorna no seu furor.
6 O que remove [3] a terra do seu logar, e as suas columnas estremecem.
7 O que falla ao sol, e não sae, e sella as estrellas.
8 O que só estende [4] os céus, e anda sobre os altos do mar.
9 O que faz [5] a Ursa, o Orion, e o Setestrello, e as recamaras do sul.
10 O que [6] faz coisas grandes, que se não podem esquadrinhar: e maravilhas taes que se não podem contar.
11 Eis que passa [7] por diante de mim, e não o vejo: e torna a passar perante mim, e não o sinto.
12 Eis que [8] arrebata; quem lh’o fará restituir? quem lhe dirá: Que é o que fazes?
13 Deus não revogará a sua ira: [9] debaixo d’elle se encurvam os auxiliadores soberbos.
14 Quanto menos lhe responderia eu! ou escolheria diante d’elle as minhas palavras!
15 A quem, [10] ainda que eu fosse justo, lhe não responderia: antes ao meu Juiz pediria misericordia.
16 Ainda que chamasse, e elle me respondesse, nem por isso creria que désse ouvidos á minha voz.
17 Porque me quebranta com uma tempestade, e multiplica as minhas chagas [11] sem causa.
18 Nem me concede o respirar, antes me farta d’amarguras.
19 Quanto ás forças, eis que elle é o forte: e, quanto ao juizo, quem me citará com elle?
20 Se eu me justificar, a minha bocca me condemnará: se fôr recto, então me declarará por perverso.
21 Se fôr recto, não estimo a minha alma: deprezo a minha vida.
22 A coisa é esta; por isso eu digo que elle [12] consome ao recto e ao impio.
23 Matando o açoite de repente, então se ri da prova dos innocentes.
24 A terra se entrega na mão do impio; elle cobre [13] o rosto dos juizes: se não é elle, quem é logo?
25 E os meus [14] dias são mais velozes do que um correio: fugiram, e nunca viram o bem.
26 Passam como navios veleiros: como aguia [15] que se lança á comida.
27 Se eu [16] disser: Me esquecerei da minha queixa, e mudarei o meu rosto, e tomarei alento;
28 Receio todas as minhas dôres, porque bem [17] sei que me não terás por innocente.
29 E, sendo eu impio, por que trabalharei em vão?
30 Ainda que me lave [18] com agua de neve, e purifique as minhas mãos com sabão,
31 Ainda me submergirás no fosso, e os meus proprios vestidos me abominarão.
32 Porque elle não é homem, como eu, a quem eu [19] responda, vindo juntamente a juizo.
33 Não [20] ha entre nós arbitro que ponha a mão sobre nós ambos.
34 Tire [21] elle a sua vara de cima de mim, e não me amedronte o seu terror.
35 Então fallarei, e não o temerei; porque assim não estou comigo.