A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento

Job justifica as suas queixas.

6 Então Job respondeu, e disse:

2 Oh se a minha magoa rectamente se pezasse, e a minha miseria juntamente se alçasse n’uma balança!

3 Porque na verdade mais pesada seria, do que a areia [1] dos mares: por isso é que as minhas palavras se me afogam.

4 Porque as frechas do Todo-poderoso estão em mim, cujo ardente veneno me chupa o espirito: os terrores de Deus se armam contra mim.

5 Porventura zurrará o jumento montez junto á relva? ou berrará o boi junto ao seu pasto?

6 Ou comer-se-ha sem sal o que é insipido? ou haverá gosto na clara do ovo?

7 A minha alma recusa tocal-o, pois é como a minha comida fastienta.

8 Quem dera que se cumprisse o meu desejo, e que Deus me désse o que espero!

9 E que [2] Deus quizesse quebrantar-me, e soltasse a sua mão, e me acabasse!

10 Isto ainda seria a minha consolação, e me refrigeraria no meu tormento, não me perdoando elle; porque não occultei [3] as palavras do Sancto.

11 Qual é a minha força, para que eu espere? ou qual é o meu fim, para que prolongue a minha vida?

12 É porventura a minha força a força de pedra? Ou é de cobre a minha carne?

13 Ou não está em mim a minha ajuda? ou desamparou-me a verdadeira sabedoria?

14 Ao [4] que está afflicto devia o amigo mostrar compaixão, ainda ao que deixasse o temor do Todo-poderoso.

15 Meus irmãos [5] aleivosamente me fallaram, como um ribeiro, como a torrente dos ribeiros que passam.

16 Que estão encobertos com a geada, e n’elles se esconde a neve.

17 No tempo em que se derretem com o calor se desfazem, e em se aquentando, desapparecem do seu logar.

18 Desviam-se as veredas dos seus caminhos: sobem ao vacuo, e perecem.

19 Os caminhantes de [6] Tema os vêem; os passageiros de Sheba olham para elles.

20 Foram [7] envergonhados, por terem confiado e, chegando ali, se confundem.

21 Agora [8] sois similhantes a elles: vistes o terror, e temestes.

22 Disse-vos eu: Dae-me ou offerecei-me da vossa fazenda presentes?

23 Ou livrae-me das mãos do oppressor? ou redemi-me das mãos dos tyrannos?

24 Ensinae-me, e eu me calarei: e dae-me a entender em que errei.

25 Oh! quão fortes são as palavras da boa razão! mas que é o que argue a vossa arguição?

26 Porventura buscareis palavras para me reprehenderdes, visto que as razões do desesperado estão como vento?

27 Mas antes lançaes sortes sobre o orphão; e cavaes uma cova para o vosso amigo.

28 Agora pois, se sois servidos, virae-vos para mim; e vede se minto em vossa presença.

29 Voltae pois, não haja iniquidade: tornae-vos, [9] digo, que ainda a minha justiça apparecerá n’isso.

30 Ha porventura iniquidade na minha lingua? Ou não poderia o meu paladar dar a entender as minhas miserias?

[1] Pro. 27.3.

[2] I Reis 19.4.

[3] Act. 20.20. Lev. 19.2. Isa. 57.15. Ose. 11.9.

[4] Pro. 17.17.

[5] Jer. 15.18.

[6] Gen. 25.15. I Reis 10.1. Eze. 27.22, 23.

[7] Jer. 14.3.

[8] cap. 13.3.

[9] cap. 17.10.