A Biblia Sagrada, Contendo o Velho e o Novo Testamento

Job mostra que os impios muitas vezes gozam prosperidade n’esta vida.

21 Respondeu porém Job, e disse:

2 Ouvi attentamente as minhas razões; e isto vos sirva de consolações.

3 Soffrei-me, e eu fallarei: e, havendo eu fallado, [1] zombae.

4 Porventura eu me queixo a algum homem? porém, ainda que assim fosse, porque se não angustiaria o meu espirito?

5 Olhae para mim, e pasmae: e ponde a mão [2] sobre a bocca.

6 Porque, quando me lembro d’isto, me perturbo, e a minha carne é sobresaltada d’horror.

7 Por que razão [3] vivem os impios? envelhecem, e ainda se esforçam em poder?

8 A sua semente se estabelece com elles perante a sua face; e os seus renovos perante os seus olhos.

9 As suas casas teem paz, sem temor; e a vara de Deus não está sobre elles.

10 O seu touro gera, e não falha: pare a sua vacca, [4] e não aborta.

11 Mandam fóra as suas creanças, como a um rebanho, e seus filhos andam saltando.

12 Levantam a voz, ao som do tamboril e da harpa, e alegram-se ao som dos orgãos.

13 Na prosperidade gastam [5] os seus dias, e n’um momento descem á sepultura.

14 E, todavia, [6] dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos.

15 Quem [7] é o Todo-poderoso, para que nós o sirvamos? e que nos aproveitará que lhe façamos orações?

16 Vêde porém que o seu bem não está na mão d’elles: [8] esteja longe de mim o conselho dos impios!

17 Quantas [9] vezes succede que se apaga a candeia dos impios, e lhes sobrevem a sua destruição? [10] e Deus na sua ira lhes reparte dôres!

18 Porque [11] são como a palha diante do vento, e como a pragana, que arrebata o redemoinho.

19 Deus guarda [12] a sua violencia para seus filhos, e lhe dá o pago, que o sente.

20 Seus olhos vêem a sua ruina, [13] e elle bebe do furor do Todo-poderoso.

21 Porque, que prazer teria na sua casa, depois de si, cortando-se-lhe o numero dos seus mezes?

22 Porventura [14] a Deus se ensinaria sciencia, a elle que julga os excelsos?

23 Este morre na força da sua plenitude, estando todo quieto e socegado.

24 Os seus baldes estão cheios de leite, e os seus ossos estão regados de tutanos.

25 E outro morre, ao contrario, na amargura do seu coração, não havendo comido do bem.

26 Juntamente [15] jazem no pó, e os bichos os cobrem.

27 Eis que conheço bem os vossos pensamentos: e os maus intentos com que injustamente me fazeis violencia.

28 Porque direis: [16] Onde está a casa do principe? e onde a tenda das moradas dos impios?

29 Porventura o não perguntastes aos que passam pelo caminho? e não conheceis os seus signaes?

30 Que [17] o mau é preservado para o dia da destruição; e são levados no dia do furor.

31 Quem accusará diante d’elle [18] o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que faz?

32 Finalmente é levado ás sepulturas, e vigia no montão.

33 Os torrões do valle lhe são doces, e attrahe a si a todo o homem; e diante de si ha innumeraveis.

34 Como pois me consolaes com vaidade? pois nas vossas respostas ainda resta a transgressão.

[1] cap. 16.10 e 17.2.

[2] Jui. 18.19. cap. 29.9 e 40.4.

[3] cap. 12.6. Jer. 12.1. Hab. 1.16.

[4] Exo. 23.26.

[5] cap. 36.11.

[6] cap. 22.17.

[7] Exo. 5.2. cap. 34.9. cap. 35.3. Mal. 3.14.

[8] cap. 22.18. Pro. 1.10.

[9] cap. 18.6.

[10] cap. 20.28, 29.

[11] Isa. 17.13 e 29.5. Ose. 13.3.

[12] Exo. 20.5.

[13] Isa. 51.17. Jer. 25.15. Apo. 14.10 e 19.15.

[14] Isa. 40.13 e 45.9. Rom. 11.34. I Cor. 2.16.

[15] cap. 20.11. Ecc. 9.2.

[16] cap. 20.7.

[17] Pro. 16.4. II Ped. 2.9.

[18] Gal. 2.11.