Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII.
Que eu não possa ajuntar como o Quintella
É cousa, que me afflige o pensamento;
Desinquieta a porra quer sustento,
E a pivia tracta já de bagatella:
Se n'outro tempo houve alguma bella,
Que a amor só désse o cono pennugento,
Isso foi, já não é; que o mais sebento
Cagaçal quer durazia caravella.
Perdem saude, bolsa, e economia;
Nunca mais me verão meu membro roto;
Esta a minha porral philosophia.
Putas, adeus! Não sou vosso devoto;
Co'um sesso enganarei a phantasia,
N'uma escada enrabando um bom garoto.

MISCELANEA.


DECIMAS.

A UM TABELLIÃO VELHO, QUE CASOU COM MOÇA NOVA.

I
Um tabellião caduco,
Com mulher moça casado,
Vai portar no seu estado
Por fé o signal de cuco:
Como já não deita succo
Por mais que puche os atilhos,
Não lhe hão de faltar casquilhos
Para a moça amantes novos,
Que lhe vão galando os ovos,
E elle vá creando os filhos.
II
Elle diz que assim o quer;
Mas de raiva dará pulos,
Vendo que são actos nullos
Os actos que elle fizer:
Sem ter direito á mulher
Que será d'este demonio?
Logo então qualquer bolonio
Lhe desmancha o casamento,
Porque não tem instrumento
Com que prove o matrimonio.

III
Tenha embhora muita renda,
Seja lavrador morgado,
Mas para homem casado
Sempre tem pouca fazenda.
É provavel se arrependa
A pobre da rapariga,
Que se agatanhe e maldiga,
Quando na noute da boda
Correr a ceara toda,
E não encontrar espiga.
IV
Inda que não tome a mona
Por ter fibra já cansada,
Mal pode assistir á entrada
De Carlos em Barcelona:
Que o leve ao porto de Ancona
Não terá vento ponteiro,
E andando sempre em cruzeiro
Que fará este homem raro?
Ser como os cães, que teem faro;
Conhecel-o pelo cheiro.

V
Por mais que á moça infeliz
Faça protestos de amor,
Sempre se quer fiador
D'homem sem bens de raiz;
Só crerá no que elle diz
Se escriptura lhe fizer;
E elle pode-lhe fazer
Uma duzia, e uma centena;
Mas nunca molhando a penna
No tinteiro da mulher.
VI
São tristes da moça os fados,
Pois lhe não consentem que ella
Avance pela Arreitella
Té Pica de Regalados:
Logo entre estes dous casados
Se trava renhido pleito,
Mas se por aggravo o feito
Elle leva á Relação,
Lá ninguem lhe dá razão,
Sem que mostre o direito.


O inferno do Ciume.

MOTTE.
O inferno do Ciume.
Glosas.
I
Esse abysmo, esse Orco eterno
Não é filho da razão;
Os pavores da illusão
É que pariram o inferno:
Pelo sizo me governo,
Que louco e falso o presume;
Mas, se não creio esse lume,
Nem esse invento maldicto,
Por exp'riencia acredito
O inferno do Ciume.
II
Em vão prégador rançoso
Lá do pulpito vozêa,
Quando a triste imagem fêa
Traça do inferno horroroso:
É systema fabuloso,
Que á razão embota o gume;
Não, não ha Tartareo lume,
Que devore a humanidade:
Sabeis vós o que é verdade?
O inferno do Ciume.


Venha cá, sô Boticario
Venha cá, sô Boticario,
Vossê sabe em que se mette,
De tão rafado cadete
Sendo terceiro, está vario?
Advirta que é necessario
Reportar acções insanas;
Estude em fazer tisanas,
Algum purgante ligeiro,
Mas não seja alcoviteiro
Muito menos de sacanas.

P'ra que viva a cosinheira
P'ra que viva a cosinheira,
Que tão boas papas fez!
Confesso por esta vez
Que bem me sabe, e me cheira:
O Papa em sua cadeira
Vestido de estola e capa,
Não faz cousa tão guapa:
A cosinheira faz mais;
O Papa faz Cardeaes,
A cosinheira faz papas.


Dialogo entre o Poeta, e o Tejo.

Poeta.

Tejo, que tens, estás quedo?
Não banhas hoje esta praia?
De que o teu valor desmaia?

Tejo.

Eu t'o digo, mas segredo:
Confesso que tenho medo
Do teu ranchinho infernal.

Poeta.

O teu susto é natural,
Parecem tres furiasinhas;
Mas comtudo são mansinhas,
Não mordem, nem fazem mal.

São uns cornos mui bem feitos

São uns cornos mui bem feitos,
Uns cornos mui delicados,
São cornos, que torneados
Se podem trazer aos peitos:
Cornos que sobem direitos,
Pela sua varonia,
E sem mais chronologia
Tem gravados na armadura
Os timbres da fidalguia.


IMPROVISO.

Á meia noute
Saíu de um cano
Cheio de merda
Crispiniano.
Eis que da ronda
Tropel insano
Divisa ao longe
Crispiniano.
Capuz o cobre;
«És franciscano?»
— Sou (lhe responde)
«Crispiniano.»
Chega o Alcaide,
Dá-lhe um abano;
Sáe da gravata
Crispiniano..


ELEGIA.
Á MORTE DE UMA FAMOSA ALCOVITEIRA.

Genio só dado a sordidas torpezas,
Que usas comprar na immunda Cotovia
Chochos agrados de venaes bellezas:
Solto o cabello, as carnes arripia
Na morte d'esta illustre recoveira,
E inspira-me tristissima elegia.
Honrada, e a mais sabida alcoviteira,
A ti consagro este cypreste umbroso,
Com que te enramo a esqualida caveira;
Em quanto pelo rio pantanoso
A ouvir te leva o pallido Charonte
Severas leis de Minos rigoroso.
Alçando para o ar a crespa fronte
Os ouvidos estende ás vozes minhas,
Quando no mundo os teus louvores conte.
Vós, moças do Bairro-Alto e Fontainhas,
Vós testemunhas sois da grande falta
Que chorando contais entre as visinhas.
Ai! Que ha de ser de vós, gente de malta!
Eu vejo em vossas faces o desgosto,
E a dor, que os corações vos sobresalta!
Morreu a vossa mãe, o vosso encosto,
Que vos ganhava o pão honradamente,
Inda que com suor do vosso rosto!
Não mais vereis entre a mundana gente
D'aquella honrada bôca o grato riso,
Que descubria um solitario dente!
Morreu a discrição, foi-se o juizo,
Vós o sabeis: melhor que esta viuva
Ninguem fez um recado de improviso.
Embrulhada na capa ao vento, á chuva,
Ella comprar-vos ia caridosa
As ginjas, os melões, a pêra, a uva:
Vendo qualquer de vós triste e chorosa,
Ella desassocega, ella trabalha
Por livrar-vos da pena lamentosa:
Conhecia os tafues já pela malha,
Ella vos apartava dos sovinas,
Para aquelles que dão maior medalha:
Chupista de dinheiro e de tolinas,
Por todas repartindo esta pendanga,
Ella era o vosso bem, e as vossas minas.
C'os homens depravados tinha zanga,
Gostava da modestia, e da virtude
Dos que dão a beijar cordão e manga.
Se a mandavam beber, era um almude,
E ás vezes não parava até que a bôca
Se lhe punha mais grossa do que grude.
A que a buscava, e que não era louca,
A recolhia em casa, e pela mamma
Apenas lhe levava cousa pouca.
Sempre de todas dava boa fama,
De freguezes lhe armava quantidade,
Té as pôr sobre si com casa e cama.
Nos ganhos não levou nunca metade;
Qualquer cousa aceitava, porque pensa
Que o mais era faltar á charidade.
Dotada foi de charidade immensa;
Sempre ao lado se achou da sua amiga
No tempo da saude, e da doença.
Aquella moça gordalhuda o diga;
Ella pode pintar mais vivos quadros
D'esta estimavel, d'esta amante liga.
No tempo em que ella andou vagando os adros
Mil vezes lhe curou c'os seus inventos
Crueis camadas de piolhos ladros.
Ella mesma c'os dedos fedorentos
Cheia de amor, de charidade cheia,
Lhe ministrava os fetidos unguentos.
Á frouxa luz da tremula candêa,
Que tem no chammejar seus intervalos,
As chagas cura, a porquidade aceia:
De alvissima pomada untando os callos,
As partes amacîa, que mordêra
O dente de ardentissimos cavallos.
Jámais no seu trajar luxo tivera,
Nem na sua cabeça houve polvilhos,
Depois que seu marido lhe morrêra.
Foi a primeira em dar ensino aos filhos;
Procurai este trilho verdadeiro
Vós, oh paes, que seguis diff'rentes trilhos.
Uma filha, que Deus lhe deu primeiro,
Arrimada a deixou com loja aberta;
Teve um filho, que foi alcoviteiro.
Eia, paes de familias, olho álerta;
Se quereis vossos filhos empregados,
Tendes seculo bom, e é móca certa.
Dispoz da sua terça, que tirados
Os gastos funeraes, que lhe fariam
Os devotos irmãos, gatos-pingados,
Os seus testamenteiros comprariam
C'o resto uma barraca, em que decente
Uma casa d'alcouce erigiriam:
Que haveriam noviças e regente;
Proveu logo este cargo na Coveira,
Por ser mais respeitosa, e mais prudente:
A Santarena fica thesoureira;
Chamou para escrivan a Ignacia China,
Felicia de Chaté madre rodeira.
Ninguem melhor os seus vintens destina,
Porque para solteiras e casadas
Vejam que seminario de doctrina!
Entre as ultimas vozes já truncadas,
Chamando a filha com afago, e rogo
Ficaram entre os braços enlaçadas.
«A mecha (lhe diz ella) junto ao fogo
«É facil de pegar…» Ia adiante,
Porém não disse mais, que morreu logo.
De pallidez cobriu-se-lhe o semblante,
Ouviram-se ao redor gritos immensos
Da turba feminil, pouco constante.
Ternos suspiros pelos ares densos
Vão abraçar o seu cadaver frio,
Cobrem-se os olhos de engomados lenços.
Cortou a Parca d'esta vida o fio,
O esp'rito nú, da carne desatado,
Lá vai cruzando o lutulento rio.
Oh dia com razão amargurado!
Em quanto nos lembrar tão triste imagem,
Sempre serás dos bons tafues chorado.
Cobrir tu viste com pesada lagem
Aquella que nos fez o beneficio
De nos dar uma casa d'estalagem.
Ninguem soube melhor do seu officio;
Nem se achára tão destra alcoviteira
Sómente com trinta annos d'exercicio.
E vós, mulheres, que gostais d'asneira,
Honrai as suas cinzas, os seus ossos,
E respeitai-lhe a funebre caveira.
A morte dá nos velhos e nos moços;
Ninguem se escapa da carranca feia
Depois de preso em seus calabres grossos.
Conservai pois esta fatal idéa,
E rodeando o corpo desditoso,
Accendei cada qual uma candêa,
E fazei-lhe um sepulchro apparatoso.

NOTAS.

Pag. 5 — A Ribeirada.

Este poema parece ter sido um dos primeiros ensaios da musa de Bocage. Inducções fundadas em boa razão nos levam a conjecturar que a composição d'elle data de tempos anteriores ao da partida do poeta para Gôa, isto é, do anno 1785. O transumpto pelo qual se fez a presente edição, é sem duvida preferivel por sua correcção ao de que se serviu quem ha já bastantes annos fez imprimir em Paris o referido poema, juntamente com outras poesias do mesmo genero em um folheto de oitavo grande. Posto que sobejem fundamentos para julgar reaes as personagens, e passados em verdade os factos, que despertaram a vêa satyrica do poeta, suscitando-lhe a idéa de tal composição, não é comtudo possivel entrar em algumas particularidades a esse respeito: e até julgâmos pouco provavel que, mesmo em Setubal, se conserva ainda a memoria das façanhas do azevichado heróe, que mereceu obter a immortalidade nos versos do Bardo do Sado.

Pag. 19 — A Manteigui.

Resumindo aqui as indicações constantes de uma nota, que encontrámos appensa a um antigo manuscripto d'este poema, sem todavia nos responsabilisarmos por sua veracidade, diremos que a protagonista D.nna Jacques Manteigui, natural de Damão, vivia na cidade de Gôa em companhia de um marido de boa feição (cujo nome e circumstancias não vieram ao nosso conhecimento). Esta dama tornava-se notavel não menos pela sua belleza que por sua desenvoltura e ambição; e sabia fazer dos seus encantos um trafico por extremo lucrativo. D. Frederico Guilherme de Sousa, então Governador geral da India, apaixonando-se por ella, a tomara por sua amiga; porém isso não obstava a que ella não lhe fizesse repetidas infidelidades. Entre outras era accusada pela voz publica de entreter luxurioso commercio com um negro, seu escravo, moço bem fornido, ao qual dava de graça o mesmo que o Governador só podia comprar por alto preço! — Disse-se que na presente composição entrara por muito a vingança pessoal de Bocage, despeitado porque a dama se recusara abertamente a corresponder-lhe, pleiteando elle com ancia os seus favores. O que parece fóra de duvida é que d'aqui lhe proveiu em parte a sua desgraça; pois que chegando esta satyra ás mãos de D. Frederico, este se julgou altamente offendido na pessoa da sua bella, e irritado contra o poeta o mandou incontinente deportado para Macau, d'onde a muito custo pôde obter licença e meios de transportar-se a Lisboa.

De poema «Manteigui» temos visto tres ou quatro edições diversas; todas feitas, ao que parece, em Lisboa. Não nos ligámos a alguma em particular, mas aproveitámos de todas as variantes que offereciam visos de mais correctas, confrontando-as sempre com os manuscriptos que possuiamos, e preferindo em todos os casos o que se nos afigurava por mais exacto, e conforme ao texto original.

Pag. 29 — A Empreza Nocturna.

Esta peça, mais conhecida sob a denominação de «Noute de Inverno» e já por vezes impressa, tem sido quasi universalmente attribuida a Bocage; pareceu portanto que não devia omittir-se na presente edição. Devemos porém declarar aos leitores, que segundo o testemunho de pessoas mui auctorisadas, ella não é obra do nosso poeta, e sim do seu contemporaneo e amigo Sebastião Xavier Botelho. De outras, que estão em caso analogo, e que similhantemente vão aqui incorporadas, iremos dando razão nos logares competentes.

Pag. 35 — Epistola a Marilia.

Todas as pessoas lidas na historia de Bocage sabem que esta epistola, e o soneto que damos a pag. 111 do presente volume, lhe serviram principalmente de corpo de delicto, quando, perseguido por ordem da Intendencia geral da policia, foi a final preso em 10 de agosto de 1797; sendo então transportado de bordo da embarcação onde se refugiara para os segredos da cadêa do Limoeiro, e d'ahi passados alguns mezes removido para os carceres da Inquisição. (Veja-se o «Estudo Biographico» que vem no tomo I. das Poesias de Bocage, edição de 1853, a pag. XL e seguintes.)

Antonio Maria do Couto nas «Memorias» que escreveu ácerca da vida do poeta, affirma em tom decisivo — que a Epistola a Marilia fora feita por occasião de ser seu mestre um frade (graciano) que a requestava: assim será; mas parece-nos, lendo esta composição, que o poeta exigia da sua bella mais alguma cousa do que pol-a de aviso contra as seducções do frade.

Quando começaram a divulgar-se algumas copias d'esta epistola, varios engenhos devotos e de animo timorato, escandalisados justamente da erronea philosophia do auctor, e muito mais do modo impio e libertino com que elle dogmatisara, estabelecendo e propalando principios tão anti-religiosos, e anti-sociaes, entenderam que era do seu dever opporem-se a taes doctrinas: para que o antidoto seguisse de perto o veneno, julgaram por melhor servir-se das mesmas armas, empregando egualmente a linguagem das musas, e ligando á força dos raciocinios as graças da metrificação. Das «Refutações» que n'este sentido appareceram conservâmos duas em nosso poder; e como as suppomos desconhecidas para o commum dos leitores, ahi lh'as apresentamos, desejando que n'ellas encontrem um correctivo seguro contra as falsas e seductoras maximas da epistola bocagiana.

A primeira é obra de Manuel Thomás Pinheiro de Aragão, admirador e amigo de Bocage, falecido ha poucos annos, e que por muitos exerceu em Lisboa com bons creditos o magisterio na instrucção da mocidade. Quanto á segunda não podémos, apesar de toda a diligencia, conhecer até agora o nome do seu auctor.

ANTI-PAVOROSA — PARODIA CHRISTAN.

I
Fatal meditação da Eternidade,
Dos vivos illusão, vida dos mortos;
Ou gloria para sempre, ou sempre inferno;
De desordens, de crimes oppressora,
Não forjada por despotas, por bonzos,
Mas sim por divinal credulidade;
Dogma infallivel, que o prazer arreigas
Quando a sizania c'o remorso arrancas;
Dogma infallivel, favoravel crença,
Digno premio de peitos innocentes,
Das delicias gosando, que mal fingem
Impavidos á furia Centimanos,
Que vomitando estão perpetua chamma;
Superiores motejam seu engano
No limiar das Parcas, eis o quadro
Que observa em vivas côres a ignorancia,
Egualmente a sciencia em vivas côres;
Inda que eu por sciente só conheço
A quem teme os castigos no ameaço,
A quem teme tornar um páe tyranno,
A quem lamenta inuteis suas preces,
Por mais que em giro ao throno elle as espalhe.
Teme o sabio que um Deus irado o fira,
E penitente vae, supplíca a venia
Ao dispenseiro seu, nobre, e sagrado.
Que ora as graças lhe abre, ora as ferrolha;
As graças, que co'as leis da natureza
Se ligam sempre, eternas, necessarias,
E só quando a vontade as torna em crimes
Cruel desunião n'ellas fomenta;
Por vêl-a rebellada lhe fulmina
Prisões suaves no jejum, cilicio,
Que n'um geral conselho só lhe arbitra;
Humilde, pode resarcir-se a benção;
Suberba, porque quer desenfadar-se
No jugo, que remata nas delicias,
Recáe n'outro maior, que a morte vende.
II
E inda dizem que Deus é vingativo,
Se com razão sacode o raio ardente?…
Antes te louvarei, por que não déste
O justo premio a muitos, que arrojando
Contra si tremendissima sentença
Julgam pela grandeza propria o crime,
E não querem fazer seu peito escravo
No castigo, que affirmam ser-lhes duro!
Será eterna a pena n'esses peitos,
Que d'um Deus se não movem ao interesse,
E o desaggravo indomito attribuem
Menos ao Sempiterno, do que a todos
Temendo perdurar como a mesma alma,
Verdades proferidas nos altares,
Onde ha satisfação, e não cruezas:
Vemos ali ministro venerando,
Longe de renovar suppostos odios,
Defendendo nos crimes a innocencia,
Primeiro recusando alto dominio,
C'o peso superior por tempo incita:
Eil-o na honra altissima abrasado,
Com sangue apaga inundações de fogo;
Testemunhas do zelo a voz, e a espuma;
Mandado por um Deus, tão bom como elle,
Pede ao Senhor não multiplique exemplos
Com que já se consterna a phantasia!
Victima impura de outra vez no povo,
Livremente seu povo entrega á morte:
Defuncto o servo, que esfriava os raios,
Punia sem limite o Omnipotente;
Inda lembra ao Sinai tremer-lhe a terra,
Quando Adonai lhe intima seus decretos.
Ah! Moysés, que não podes ser astuto,
Contra a publica voz, que assim troveja!
O teu povo confessa os seus furores,
Quando entregue de um Deus á justa raiva
Sua clemencia, succumbia á tua:
Na inteireza, que tens, creio; confio
Que a tocha da verdade te precede,
Para mais deslumbrar aos que te offendem:
Que se o ferro fatal já não se ensopa
No resto d'estas animadas cinzas,
Da lei da graça os divinaes incensos
Por disfarçar a pena tornam surdos
Á voz interna os que não crêem no inferno:
Tremenda lei, se a pena lhe retardas!
Mas se lh'a appressa executor propheta
Lhe acalma as iras, porque vae, diffunde
O pavoroso medo nos sequazes
Do idolatra e espantoso fanatismo.
Convocam-se os levitas, os quaes matam
Aos cumplices de tal atrocidade:
Comprimida gemeu a Natureza;
Por um Deus os consortes, páes, e filhos
Com seu sangue as espadas, vestes tingem:
Recobra o páe quem faz o parricidio,
E aos campos, que de victimas se alastram
Chovem mil novas graças como em rios.
Acalmada a justiça a teus clamores,
Por honra do teu Deus, servo sedento,
Co'um só estrago evitas mil estragos,
Ferrando a todos do leão as garras.
E tu, impio, as blasphemias que derramas
Escusa, lendo a historia dos tyrannos.
Os de Israel não foram que este exemplo
Tomaram por fazer pesado o jugo;
Por uma vil paixão, cruel, não manches
Os direitos de um Ser eterno, augusto.
De um Deus real Moysés real valido
Deu cultos á verdade, corte ao genio,
E codigo de leis mais necessario
Deu a todos, que a bem de si o imitam,
Prova fiel de que um Deus senhor existe.
III
O quadro original eis, oh Marilia,
Em que a verdade ha tempos anda envolta,
Sem que pinceis deslustrem d'esses tempos
Os que fieis copiam pinceis nossos.
Tradição verdadeira desarreiga
Toda a suspeita de fallaz doctrina,
Quando entre mil e mil preoccupados
Nos podêmos suppôr de horridas sombras,
Formando povo, juram que a piedade
Existe em Deus, inda quando te flagella.
Não julga o impio assim, que todo é fogo,
Que o Deus tem nas paixões, e vive d'ellas;
Forma um Nume, que ao seu dictame ajusta,
E por elle regula a infeliz vida.
Simulacro liberrimo é suave,
Dirige a seu exemplo as acções todas,
E em tanto que se escuta a natureza,
Vae fugindo a razão, e céga a muitos.
Ambas, sendo guiadas, não differem,
Dos factos aos reflexos só conduzem;
E a mesma, que soccorre ao indigente,
Que alenta, que consola o triste afflicto,
A mesma em si reflecte consternada
Quando algum seu alumno entrega os pulsos
Voluntario de amor ás vís algemas:
Amor, que uma inspirou, ambas approvam,
E ambas murmuram aliás da insania
Que os humanos colloca a par dos brutos,
Queda, vicio total, que os desacorda,
Do qual preoccupados, uns aos outros
Invenciveis motivam feros males.
Ah! não sejam, Marilia, nossas mentes
Tomadas do dictame em que jaz crime!
Do remorso a lembrança evite a culpa;
Um Deus em nosso bem benigno existe,
Que te pode escudar o pensamento
Ao golpe do que fragil se arrepende.
Não são aos actos intenções oppostas,
Antes estas áquelles dando exemplos
Na contemplação propria culpam a alma.
IV
Supplemento d'acção faz doce encanto
O que antes era objecto de terrores,
E convertido n'um final interesse
Emprega a bem dos crentes a astucia:
Oxalá, doce amada, que no inferno
Não padecesse o pensamento angustias
Do crime o galardão, merecido premio!
Que eu de amor aos fatidicos embustes
Me entregára por ti, se o não houvera!
Além de contemplar-te deusa bella,
Novo altar te formára em minha mente.
Mas ah! que a minha lei, se rigorosa
Mostra um semblante no ext'rior severo.
Seus nobres fins a tornam jugo amante.
Concedendo-me em doce ajuste sacro
A posse eterna do que pinta a idéa!
Em teus dotes mais ricos do que o mundo
Tu bem podes gravar pacto solemne,
Que é desejado mais quando te esquivas;
Porque o pejo innocente foge ao laço
Que inculcando te estou, te estou pedindo.
Sacra alliança pedem teus direitos
Por belleza e traição só extorquidos.
Approva ternamente o jus paterno
A chamma, quando pura se affoguêa.
Então desfructarás da liberdade,
Quando maior sentires este jugo[1]

Quando quer sustentar que amor com guardas
Influencias não pode ter propicias,
Emmudeça tambem o louco Elmano,
Que ignora do seu Deus os sanctos lares,
E quer solemnisar a união de almas
Dando por testemunhas venerandas
As trevas, apezar que nada sejam:
Deixado o sacerdote, ampliado o templo,
Celebra o matrimonio em toda a terra:
Quem faz caso porém de seus transportes?
Seu coração ao menos desafogue
Em proclamar, mas por que não incita
O vedado prazer de horrivel nome.
E querendo render nossas vontades
Co'as falsas persuasões, que mal recebem,
Na religião pretende amortecer-te,
Porque possa appetite aviventar-te.
Ah! que não se propõe ser teu amante
Quem quer na confusão de mil suspiros
Tão infeliz fazer-te quanto é elle!
Entretanto, Marilia, não te prives
D'outras estimações de quem te adora;
Na minha lei tu podes ser amada,
E amares, se á razão não fores surda.
Meu coração de ver-te enfeitiçado
Emprega provas mil suas, e minhas,
Porque ames, sem deixar de ser ditosa.
Deve a religião guiar teu gosto,
A lembrança final desterre o crime:
Que apezar do vicioso, que pregôa,
Existem céos, existe o negro inferno;
Laurea-se n'aquelles a virtude,
Arderá n'este para sempre o vicio.

Até aqui M.P. Thomaz Pinheiro d'Aragão. Veja-se agora a Refutação anonyma.

EPISTOLA AO AUCTOR DA «PAVOROSA»

Sacrilego impostor, que renovando
Os antigos delirios da ignorancia,
Mil vezes felizmente refutados,
Pretendes illudir a innocencia,
Fabricando um systema monstruoso,
Incrivel mesmo aos olhos da impiedade:
Quando a mão temeraria assim levantas
Contra o dogma fatal da eternidade,
Aviltando o teu ser, dize, profano,
Não te grita a razão — Suspende o braço?
Esse Deus, que confessas amoroso,
Deus de paz, pae dos homens, não flagello,
Como esses attributos desempenha
Com frouxa indifferença submergindo
No embrião do nada aquelles entes
Em que quiz esculpir a sua imagem?
Onde estará o amor, onde a ternura
D'esse Ente nosso pae? Em ter creado
De motu proprio uns miseraveis entes,
Que depois de passarem opprimidos
Sobre este globo cheio de trabalhos,
Devem ser outra vez depois da morte
Reduzidos ao nada? Dize, infame,
O que vale a virtude, essa virtude
Á custa de mil lagrimas comprada,
Se a alma não passa além da sepultura,
Onde só pode achar a recompensa?
Para que o feio vicio é condemnado,
Que os sentidos encanta e lisonjêa?
Se da nossa existencia é o sepulchro
O novissimo termo, é impiedade
Contrastar o appetite, e devem todos
Ás avidas paixões largar as redeas,
Pois mais felicidade não se espera.
Réo de taes sentimentos, e dos crimes
Que são d'elles precisas consequencias,
Attreves-te a chamar sonho, e chiméra
Esse logar terrivel, que desejas
Não existisse para teu flagello!
Dogma fatal, mas dogma necessario,
Cuja existencia só negar se attreve
Quem pondo-se ao nivel dos mesmos brutos
A razão, como tu, tem degradado!
Dize, infeliz: se o homem virtuoso
Vês sem estimação, sem recompensa,
Luctando co'a desgraça, em dura guerra
Com as suas paixões continuamente,
Se o vês dos orgulhosos opprimido,
Da miseria arrastando as vís cadêas,
E os flagellos soffrendo da injustiça,
Dirás que o justo Deus adormecido
Lhe não reserva digna recompensa
De o chamar ao seu seio, repartindo
Com elle os dons da doce eternidade?
Se o impio vês, pizando impunemente
As sanctas leis aos pés, e da ventura
Os favores gosar, se o vês honrado,
E talvez recebendo inda favores
Por opprimir a candida virtude
Dos que gemem debaixo do seu throno;
Se leis não pondo ao avido appetite,
Gosa a satisfação, que tanto prezas,
Dirás que o mesmo Deus deixa impunida
Por frouxidão a sua iniquidade,
E que lhe não destina calabouços
Onde a pena receba de seus crimes?
O estado feliz das almas justas,
Nem de Deus fora digno, nem perfeito,
Se sendo limitado a algum espaço
Não se estendesse a toda a eternidade:
Pois que durando n'ella essa virtude
Porque alcançaram esse dom supremo
É conforme á justiça que em Deus seja
O premio assim tambem continuado:
Pelos mesmos principios são eternos
Os castigos do impio: um juiz justo
Não pode perdoar um crime grave,
Se d'elle o aggressor não se arrepende.
Nos precitos ha sempre pertinacia,
E por isso serão eternamente
Da justiça divina castigados.
Aos sanctos livros… porém não profanes
Co'a impia mão as paginas sagradas,
Que estas tristes verdades nos relevam;
Só chegar deve a este sanctuario
Quem cheio de temor, e de respeito
As palavras adora, que elle encerra.
Para te confundir, a outras fontes
Mais dignas de teus vís impuros labios.
Por tua confusão quero guiar-te,
Porque vejas que o cego gentilismo
Falto das luzes sanctas do evangelho,
Por entre as grossas trevas da ignorancia
O dogma conheceu, que tu condemnas:
Ouve Platão, que manda os assassinos
Para o Tartaro negro, e tenebroso,
Onde diz que os tormentos são eternos.
De Sycione ao philosopho pergunta
Quem lhe ensinou que havia dous logares
Para o premio e castigo além da morte?
Ouve Plutarco, que esta mesma crença
Com a maior clareza te annuncia:
Lê finalmente gregos e romanos,
Egypcios e chaldeos, verás em todos
Este logar ao vivo retratado:
Verás gemer Sisyphos carregados
C'o peso rude de infernaes penedos;
Promethêos opprimidos de cadêas,
Ticios de abutres feros devorados,
Tantalos, e outros mil, que submergidos
No abrasado barathro nos pintam:
São fabulas, eu sei; mas esta idéa
Posto que com ficções desfigurada
Só de uma tradição a mais amiga
Podia deduzir a sua origem.
Escravo das paixões, a que te entregas,
Pretendes, temerario, collocal-as
Par a par da virtude, blasphemando
De quem por torpes vicios as condemna?
Aprende a defendel-as, ignorante;
Verás que da razão sendo inimigas
Não se podem livrar de ser culpaveis.
Perdendo a graça, dize, fementido,
Qual é o meio de revindical-a?
Duvîdas de que o summo sacerdote
Para estes infelizes naufragantes
Da penitencia não deixou a taboa?
Duvidarás que foi aos sacerdotes
A quem deu o poder illimitado
De atar e desatar os criminosos?
Se não duvidas, deves confessar-me
Que antes de proferirem a sentença
Devem primeiro conhecer a culpa.
Ajoelha, profano, mentecapto,
Ante este tribunal, de que escarneces,
Fonte de graça, que te fugiu d'alma.
Respeita nos ministros, que a despendem,
Não as suas fraquezas, que são homens,
Mas aquelle de quem são commissarios.
Não é Deus oppressor, não vingativo,
Por vibrar com a dextra o raio ardente
Contra os que seguem, como tu, com furia
Da carne os criminosos movimentos,
Que sua lei, tua razão condemnam.
Dizes que a punição excede o crime;
Blasphemo, que tu és! Pesa, se podes
Da offensa a infinita gravidade,
E verás que o castigo não excede.
Apostata infeliz, como te atreves
A tractar de tyranno o Omnipotente,
O Deus, que no Sinay envolto em gloria
Sanctas leis d'Israel dictou ao povo?
Achas indigno d'ellas o exterminio
D'esses torpes idolatras, mil vezes
Ingratos de seu Deus aos beneficios?
Arbitro absoluto dos viventes,
Não pode, prescindindo inda da culpa,
As vidas acabar, que lhe pertencem?
E conclues d'aqui, que o seu ministro
Moysés incomparavel, foi um monstro
De furor, impostura, e fanatismo?
Hallucinado monstro, onde bebeste
Para tua desgraça tal doctrina?
Podia um impostor fender as aguas
Com a força enganosa dos prestigios,
Fazendo pelo leito do mar-Roxo
Caminho só aos peixes conhecido?
Poderia de um arido rochedo
Só com o leve toque de uma vara
Fazer sair uma abundante fonte
Para o povo com sede fatigado?
Seria a sua astucia só bastante
Para outros mil prodigios d'esta ordem,
Em que de Pharaoth os mesmos magos
Confessaram andar de Deus o dedo?
Vae ler sem prevenção os seus escriptos,
Que são retratos os mais vivos d'alma,
N'elles descobrirás quanto é diverso
Aquelle original da negra copia
Que desenhou a tua mão indigna
Por fascinar os olhos da innocencia.
Lê nos mesmos pagãos os elogios
Que soube merecer-lhe o seu caracter,
Já que da sancta Egreja os testemunhos
Indigno desertor assim desprezas.
Para enganar a credula innocencia,
Que seduzir pretendes insensato,
Confundes o amor que Deus ordena,
Com aquella paixão, aquella insania,
Que arrasta os homens ao nivel dos brutos?
Que idéa, dize, tens da Divindade?
Confessas que é delicto aos similhantes
Traçar damnos crueis, injustos males,
E pretendes sem culpa assassinar-lhe
A virtude, roubando-lhe a innocencia?
Indigno, inconsequente, mentecapto,
Das luzes da razão abandonado,
Que dogmatisar queres vãos delirios
Uns a outros oppostos, e que offendem
Natureza, Razão, e Divindade;
Degradas o teu ser, não consentindo
Que haja além do sepulchro Eternidade.
Aviltas a Razão, suppondo-a digna
De approvar teu delirio extravagante;
A Divindade offendes, quando a pintas
Com attributos, que lhe são contrarios.
Esconde a face, e nunca as claras luzes
Vejas do céo, cuja existencia negas;
Sepultado nas trevas da ignorancia,
A que te guiam voluntarios erros,
Costuma-te aos horrores d'esse abysmo,
Em que, apezar de o teres por chimera,
Confessarás um dia, mas já tarde,
Não ser uma illusão a Eternidade.