Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII.
De c'rôa virginal a frente ornada,
Em lugubres mortalhas envolvida,
A beata fatal jaz estendida,
De assistentes contrictos rodeada:
Um se tem por já salvo em ter chegada
Ao lindo pé a bocca commovida;
Outro protesta reformar a vida;
Porém ella respira, e está corada!
Que é sancta, e que morreu, com juramentos
Affirma audaz o façanhudo frade,
E que prodigios são seus movimentos:
O devoto auditorio se persuade:
Renovam-se os protestos, e os lamentos;
Triste religião! Pobre cidade!

II

Acredite, sentado aos quentes lares
Nas noutes hynvernosas de Janeiro,
Lendo em Carlos Magno o sapateiro
As proezas crueis dos doze Pares:
Cream que vem as bruxas pelos ares
A chupar as creanças no trazeiro;
Comam quanto lhes diz o gazeteiro,
De casos, de successos singulares:
Porém que uma beata amortalhada,
Com a cara vermelha e corpo molle,
E sancta, por um frade apregoada;
Que respire, que os braços desenrole,
E seja por defuncta acreditada,
Isto sómente em Evora se engole!

Voltando ao soneto de Bocage, digamos aqui alguma cousa com referencia ás distinctas personagens n'elle commemoradas.

Heróe de bola chata, etc. — Era D. José da Costa, marechal de campo, e governador d'Evora, que por morte de seu irmão mais velho veiu a ser conde de Soure, e tenente general. Foi elle o primeiro que com sua filha bastarda D. Maria José tiveram a honra de ser abençoados pela sancta beata, e de lhe beijarem os pés, tocando seus lenços nas chagas, que ahi se offereciam á veneração dos fieis, feitas prodigiosamente por meio do nitrato de prata!

Falso pastor etc. — O Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, do qual acima falámos.

O respeitavel Cunha etc. — Antonio da Cunha Souto-maior, sargento mór do regimento de cavallaria d'Evora, que não obstante ser tido por homem instruido e desabusado, foi o segundo que teve a alta ventura de beijar o pé á sancta!

Pag. 146 a 162 — Sonetos XXXVI a LII.

Todos os sonetos comprehendidos nas paginas e sob os numeros indicados, foram por nós trasladados ha quasi trinta annos de um quaderno, que continha promiscuamente obras de Bocage, e de Pedro José Constancio, mas sem a devida separação; tornando-se por isso difficultoso, se não impossivel, discriminar com certeza entre ellas as que pertencem a um ou outro dos dous poetas; muito mais quando os estylos de ambos offerecem ás vezes tal similhança, que deixa indeciso o juizo mais experimentado.

Por conseguinte pareceu preferivel a idéa de os reproduzir aqui na sua totalidade; o leitor poderá fazer a respeito de cada um as observações que a sua critica lhe suggerir, e estremal-os-ha como for do seu agrado.

Pedro José Constancio, a quem indubitavelmente pertencem alguns dos sonetos a que nos referimos, foi bacharel formado em canones pela universidade de Coimbra, filho de Manuel Constancio, cirurgião da camara da Rainha D. Maria I, e conseguintemente irmão do nosso conhecido escriptor Francisco Solano Constancio. Falleceu antes de 1820, e conviveu no seu tempo com a maior parte dos poetas contemporaneos, particularmente com Bocage, e José Agostinho. Homem de vida extravagante, e desregrada soffria por vezes ataques de alienação mental, chegando a apresentar-se nú em pleno dia ás janellas da casa onde morava, no deserto da rua larga de S. Roque! Compoz grande numero de poesias, quasi todas licenciosas, e entre estas um poema allusivo á fornicação dos cães dentro nas egrejas, que sendo denunciado ao Intendente Geral da Policia por Pedro Alexandre Cavroé, deu logar á reclusão do poeta por alguns dias na cadêa do Limoeiro; e poderia ter peores consequencias, se não interviessem os rogos e empenhos de alguns amigos, que se interessaram por elle para com o Intendente. Enfermidades geradas pelos excessos venereos a que se dava, sem escolha nem reserva, o levaram a um estado valetudinario, attenuando-lhe as faculdades, e tornando-o incapaz de toda a applicação. Victima de seus desregramentos falleceu antes de completar quarenta annos de edade.

Entre as poucas composições suas, que se imprimiram, ha um soneto, que por engano foi inserido como de Bocage pelo editor do 4.° tomo das Obras poeticas d'este poeta, que sahiu á luz em 1812; posto que, mais bem aconselhado, o mesmo editor o expungisse depois na segunda edição do referido volume feita em 1829. Crêmos que os leitores não desgostarão de aqui o verem, pois que n'outra parte se não encontra.

Soneto

Para illudir o suspirado encanto,
Por quem debalde ha longo tempo ardia,
«Um ninho achei, oh Lesbia (eu lhe dizia)
«Como é dos páes delicioso o canto!»
Assim doloso me expressava, em quanto
Um alegre alvoroço em Lesbia eu via;
«Ah! onde o deparaste?» (ella inquiria)
«Vem (lhe torno) comigo ao pé do acantho:»
Por um bosque me fui c'os meus amores,
Pergunta aos ramos pelo implume achado,
E respondendo só vão meus furores:
Conhece… quer fugir ao laço armado,
Na encosta a vérgo, que afofavam flores,
Beijo-lhe as iras… fique o mais calado.

Pag. 165 — Decimas a um Tabellião.

Serão estas decimas effectivamente de Bocage! Ha quem o affirme, e quem o negue. Na duvida as deixamos ir; mas persuadimo-nos de que em qualquer dos suppostos, os leitores não nos levarão a mal a insersão d'ellas no presente volume.

Pag. 169 — Decima II.

Para intelligencia do equivoco em que o poeta fundou o pensamento d'estes versos, ahi vai copiado o titulo, ou explicação, que lhes poz A.M. do Couto ao inseril-as na collecção, a que por vezes temos alludido.

«Feita por occasião de Bocage estar hospede em casa de um amigo, e trazendo-lhe a criada para seu almoço um prato de papas de milho.»

Pag. 170 — Decima I.

Diz o referido Couto, que esta decima — «fôra improvisada a certo rancho de feias, que se iam banhar no Tejo em maré vazante.»

Pag. 171 — Improviso.

Deu occasião a este improviso o facto de ter sido o Saunier preso em certa noute pela ronda do bairro como suspeito. No que toca a este individuo, e á sua historica gravata, veja-se o que se diz no tomo III da nova edição das Poesias de Bocage a pagina 414.

Alguem quiz, não sabemos com que razão, attribuir estes versos a Bersane; mas outros, que se dizem bem informados, sustentam que são de Bocage. Não achamos que o assumpto valha a pena da discussão; para ahi os lançamos, e os leitores ajuizem d'elles o que lhes parecer.

Pag. 172 — Elegia etc.

Dizemos a respeito d'esta peça o mesmo que dissemos das «Decimas ao Tabellião» (pag. 165) isto é, que não ha certeza de que Bocage fosse o seu auctor; mas achamos-lhe merito sufficiente para que os leitores não desestimem encontral-a aqui impressa pela primeira vez.

FIM.


Índice Exaustivo dos Poemas Contidos Neste Volume

Ribeirada: poema em um só canto.
A Manteigui: poema em um só canto.
A Empreza Nocturna.
Epistola a Marilia.
Fragmento De Alceu, Poeta Grego: traduzido da imitação franceza de Mr. Parny.
Arte de Amar, ou Preceitos, e Regras Amatorias para Agradar ás Damas. Imitação de Ovidio.
Cartas de Olinda e Alzira.
Epistola I. Olinda a Alzira.
Epistola II. Alzira a Olinda.
Epistola III. Olinda a Alzira.
Epistola IV. Alzira a Olinda.
Epistola V. Olinda a Alzira.
Epistola VI. Alzira a Olinda.
Epistola VII. Olinda a Alzira.
Sonetos.
Soneto I. Tendo o terrivel Bonaparte á vista
Soneto II. Lá quando em mim perder a humanidade
Soneto III. Esse disforme, e rigido porraz
Soneto IV. N'um capote embrulhado, ao pé de Armia
Soneto V. No canto de um venal salão de dança
Soneto VI. Não lamentes, oh Nise, o teu estado
Soneto VII. Tu, oh demente velho descarado
Soneto VIII. Vai cagar o mestiço, e não vai só
Soneto IX. Arreitada donzella em fofo leito
Soneto X. Esquentado frisão, brutal masmarro
Soneto XI. N'esta, cuja memoria esquece á Fama
Soneto XII. Amar dentro do peito uma donzella
Soneto XIII. É pau, e rei dos paus, não marmelleiro
Soneto XIV. Bojudo fradalhão de larga venta
Soneto XV. Aquelle semi-clerigo patife
Soneto XVI. Porri-potente heróe, que uma cadeira
Soneto XVII. Dizem que o rei cruel do Averno immundo
Soneto XVIII. Nojenta prole da rainha Ginga
Soneto XIX.Turba esfaimada, multidão canina
Soneto XX. Magro, de olhos azues, carão moreno
Soneto XXI. Na scena em quadra tragico-hynvernosa
Soneto XXII. Não tendo que fazer Apollo um dia
Soneto XXIII. Rapada, amarellenta cabelleira
Soneto XXIV. Pilha aqui, pilha ali, vozêa auctores
Soneto XXV. Não chores, chara esposa, que o Destino
Soneto XXVI. Se quereis, bom Monarcha, ter soldados
Soneto XXVII. Veiu Muley-Achmet marroquino
Soneto XXVIII. Uma noute o Scopezzi mui contente
Soneto XXIX. Cagando estava a dama mais formosa
Soneto XXX. Quando do gran Martinho a fatal Parca
Soneto XXXI. Dizendo que a costura não dá nada
Soneto XXXII. Piolhos cría o cabello mais dourado
Soneto XXXIII. Se o gran serralho do Sophi potente
Soneto XXXIV. Não te crimino a ti, plebe insensata
Soneto XXXV. Se tu visses, Josino, a minha amada
Soneto XXXVI. Cante a guerra quem fôr arrenegado
Soneto XXXVII. Fiado no fervor da mocidade
Soneto XXXVIII. Eu foder putas?.. Nunca mais, caralho!
Soneto XXXIX. «Ora deixe-me, então… faz-se creança?
Soneto XL. Pela rua da Rosa eu caminhava
Soneto XLI. «Apre! Não mettas todo… Eu mais não posso…»
Soneto XLII. Vem cá, minha Maria, tão roliça
Soneto XLIII. Dormia a somno solto a minha amada
Soneto XLIV. Eram oito do dia; eis a creada
Soneto XLV. Pela escadinha de um courão subindo
Soneto XLVI. Eram seis da manhan; eu acordava
Soneto XLVII. «Mas se o pae acordar!.. (Marcia dizia
Soneto XLVIII. Quando no estado natural vivia
Soneto XLIX. Levanta Alzira os olhos pudibunda
Soneto L. Uma empada de gallico á janella
Soneto LI. Com que magoa o não digo! Eu nem te vejo
Soneto LII. Que eu não possa ajuntar como o Quintella
Decimas.
A um Tabellião Velho, que Casou com Moça Nova.
O inferno do Ciume.
Venha cá, sô Boticario
P'ra que viva a cosinheira
Dialogo entre o Poeta, e o Tejo.
São uns cornos mui bem feitos
Improviso.
Elegia. Á Morte de uma Famosa Alcoviteira.
Anti-pavorosa — Parodia Christan. (Manuel Thomás Pinheiro de Aragão)
Epistola ao Auctor da «Pavorosa» (Anonymo.)
Soneto. Não lamentes, Alcino, o teu estado (José Anselmo Corrêa Henriques)
Entre um frade, e entre um burro
Casou um bonzo da China
Soneto. Em quanto a rude plebe alvoroçada (Anonymo)
Soneto. Morreu Bocage, sepultou-se em Gôa! (B.M. Curvo Semedo.)
Soneto. Esqueleto animal, cara de fome (Anonymo.)
Soneto. Ha junto do Parnaso um turvo lago (J. Franco)
Epigramma. De todos sempre diz mal (D. Caldas Barbosa.)
Satyra. Impondo duração além das eras (autor desconhecido)
Do throno excelso nos degraus sagrados (Fr. José Botelho Torrezão)
Encontrei certo Leigo franciscano (José Caetano de Figueiredo)
Christo morreu ha mil e tantos annos (Francisco Manuel do Nascimento)
Padre Frei Cosme, vossa reverencia (autor desconhecido)
Lingua mordaz, infame, e maldizente (autor desconhecido)
Soneto I. De c'rôa virginal a frente ornada (Miguel Tiberio Pedegache)
Soneto II. Acredite, sentado aos quentes lares (Miguel Tiberio Pedegache)
Soneto. Para illudir o suspirado encanto (Pedro José Constancio)