Em lugubres mortalhas envolvida,
A beata fatal jaz estendida,
De assistentes contrictos rodeada:
Ao lindo pé a bocca commovida;
Outro protesta reformar a vida;
Porém ella respira, e está corada!
Affirma audaz o façanhudo frade,
E que prodigios são seus movimentos:
Renovam-se os protestos, e os lamentos;
Triste religião! Pobre cidade!
II
Nas noutes hynvernosas de Janeiro,
Lendo em Carlos Magno o sapateiro
As proezas crueis dos doze Pares:
A chupar as creanças no trazeiro;
Comam quanto lhes diz o gazeteiro,
De casos, de successos singulares:
Com a cara vermelha e corpo molle,
E sancta, por um frade apregoada;
E seja por defuncta acreditada,
Isto sómente em Evora se engole!
Voltando ao soneto de Bocage, digamos aqui alguma cousa com referencia ás distinctas personagens n'elle commemoradas.
Heróe de bola chata, etc. — Era D. José da Costa, marechal de campo, e governador d'Evora, que por morte de seu irmão mais velho veiu a ser conde de Soure, e tenente general. Foi elle o primeiro que com sua filha bastarda D. Maria José tiveram a honra de ser abençoados pela sancta beata, e de lhe beijarem os pés, tocando seus lenços nas chagas, que ahi se offereciam á veneração dos fieis, feitas prodigiosamente por meio do nitrato de prata!
Falso pastor etc. — O Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, do qual acima falámos.
O respeitavel Cunha etc. — Antonio da Cunha Souto-maior, sargento mór do regimento de cavallaria d'Evora, que não obstante ser tido por homem instruido e desabusado, foi o segundo que teve a alta ventura de beijar o pé á sancta!
Pag. 146 a 162 — Sonetos XXXVI a LII.
Todos os sonetos comprehendidos nas paginas e sob os numeros indicados, foram por nós trasladados ha quasi trinta annos de um quaderno, que continha promiscuamente obras de Bocage, e de Pedro José Constancio, mas sem a devida separação; tornando-se por isso difficultoso, se não impossivel, discriminar com certeza entre ellas as que pertencem a um ou outro dos dous poetas; muito mais quando os estylos de ambos offerecem ás vezes tal similhança, que deixa indeciso o juizo mais experimentado.
Por conseguinte pareceu preferivel a idéa de os reproduzir aqui na sua totalidade; o leitor poderá fazer a respeito de cada um as observações que a sua critica lhe suggerir, e estremal-os-ha como for do seu agrado.
Pedro José Constancio, a quem indubitavelmente pertencem alguns dos sonetos a que nos referimos, foi bacharel formado em canones pela universidade de Coimbra, filho de Manuel Constancio, cirurgião da camara da Rainha D. Maria I, e conseguintemente irmão do nosso conhecido escriptor Francisco Solano Constancio. Falleceu antes de 1820, e conviveu no seu tempo com a maior parte dos poetas contemporaneos, particularmente com Bocage, e José Agostinho. Homem de vida extravagante, e desregrada soffria por vezes ataques de alienação mental, chegando a apresentar-se nú em pleno dia ás janellas da casa onde morava, no deserto da rua larga de S. Roque! Compoz grande numero de poesias, quasi todas licenciosas, e entre estas um poema allusivo á fornicação dos cães dentro nas egrejas, que sendo denunciado ao Intendente Geral da Policia por Pedro Alexandre Cavroé, deu logar á reclusão do poeta por alguns dias na cadêa do Limoeiro; e poderia ter peores consequencias, se não interviessem os rogos e empenhos de alguns amigos, que se interessaram por elle para com o Intendente. Enfermidades geradas pelos excessos venereos a que se dava, sem escolha nem reserva, o levaram a um estado valetudinario, attenuando-lhe as faculdades, e tornando-o incapaz de toda a applicação. Victima de seus desregramentos falleceu antes de completar quarenta annos de edade.
Entre as poucas composições suas, que se imprimiram, ha um soneto, que por engano foi inserido como de Bocage pelo editor do 4.° tomo das Obras poeticas d'este poeta, que sahiu á luz em 1812; posto que, mais bem aconselhado, o mesmo editor o expungisse depois na segunda edição do referido volume feita em 1829. Crêmos que os leitores não desgostarão de aqui o verem, pois que n'outra parte se não encontra.
Soneto
Por quem debalde ha longo tempo ardia,
«Um ninho achei, oh Lesbia (eu lhe dizia)
«Como é dos páes delicioso o canto!»
Um alegre alvoroço em Lesbia eu via;
«Ah! onde o deparaste?» (ella inquiria)
«Vem (lhe torno) comigo ao pé do acantho:»
Pergunta aos ramos pelo implume achado,
E respondendo só vão meus furores:
Na encosta a vérgo, que afofavam flores,
Beijo-lhe as iras… fique o mais calado.
Pag. 165 — Decimas a um Tabellião.
Serão estas decimas effectivamente de Bocage! Ha quem o affirme, e quem o negue. Na duvida as deixamos ir; mas persuadimo-nos de que em qualquer dos suppostos, os leitores não nos levarão a mal a insersão d'ellas no presente volume.
Pag. 169 — Decima II.
Para intelligencia do equivoco em que o poeta fundou o pensamento d'estes versos, ahi vai copiado o titulo, ou explicação, que lhes poz A.M. do Couto ao inseril-as na collecção, a que por vezes temos alludido.
«Feita por occasião de Bocage estar hospede em casa de um amigo, e trazendo-lhe a criada para seu almoço um prato de papas de milho.»
Pag. 170 — Decima I.
Diz o referido Couto, que esta decima — «fôra improvisada a certo rancho de feias, que se iam banhar no Tejo em maré vazante.»
Pag. 171 — Improviso.
Deu occasião a este improviso o facto de ter sido o Saunier preso em certa noute pela ronda do bairro como suspeito. No que toca a este individuo, e á sua historica gravata, veja-se o que se diz no tomo III da nova edição das Poesias de Bocage a pagina 414.
Alguem quiz, não sabemos com que razão, attribuir estes versos a Bersane; mas outros, que se dizem bem informados, sustentam que são de Bocage. Não achamos que o assumpto valha a pena da discussão; para ahi os lançamos, e os leitores ajuizem d'elles o que lhes parecer.
Pag. 172 — Elegia etc.
Dizemos a respeito d'esta peça o mesmo que dissemos das «Decimas ao Tabellião» (pag. 165) isto é, que não ha certeza de que Bocage fosse o seu auctor; mas achamos-lhe merito sufficiente para que os leitores não desestimem encontral-a aqui impressa pela primeira vez.
FIM.